Não sou impressionista: sou um desenhista camaleão

Entre o bico de pena, a memória e os trejeitos do design, Pacard fala sobre as referências, os afetos e a liberdade técnica que orientam sua arte.

Nôno Vimeiro ensina duas crianças a trançar vime, ilustração de Pacard

Impressionismo? Não necessariamente. O impressionismo é muito afeito à pintura pura, enquanto eu tenho uma grande admiração pelo desenho — especialmente pelo bico de pena de Gustave Doré e pelas litografias que ilustravam os livros do século XIX.

Também me inspiro bastante em Alphonse Mucha, pela beleza de seus desenhos e de suas figuras femininas. Não se trata propriamente de pintura, mas de desenho colorido — algo que sempre me atraiu.

Tecnicamente, não tenho regras. Trabalho com diversas técnicas e vários estilos; sou meio camaleão. Faço pouca arte conceitual porque, sem um trabalho externo de apresentação, não tenho público para ela. Sou movido a desafios.

Trago comigo os trejeitos do design, em que muitas vezes importa mais aquilo que preciso mostrar do que aquilo que quero dizer. Fui desenhista publicitário, e esse afeto pelos detalhes ficou profundamente marcado em mim: quanto mais detalhado, mais eu gosto.

Tenho também muito carinho pela espiritualidade. Não faço parte de nenhuma organização religiosa, mas sou um estudioso profundo das Escrituras. Nelas encontro uma síntese, tanto no judaísmo quanto na essência cristã: a empatia e a simplicidade sem vulgaridade. Isso também faz parte dos meus lápis.

Sem filosofia de almanaque: eu gosto de gente. Gosto de gente simples, da linguagem povoeira, dos traços rústicos do falar e da estética das pessoas comuns. Gosto de retratar mãos calejadas, crianças absortas ouvindo uma história e a mãe angustiada diante do filho febril.

Retrato essas pessoas em épocas que eu mesmo vivi — os anos 1960, 1970 e até tempos anteriores. Não de forma caricata, mas como quem conta uma história ilustrada. Meus desenhos lembram bastante aquelas ilustrações dos livros que eu tinha na escola primária.

Gosto do valor intrínseco da arte, num paradoxo com aquilo que fiz ao longo de cinquenta anos: o design, que tem valor extrínseco. No extrínseco, vale a opinião do cliente. No intrínseco, importa a minha opinião — e ela é expressa pela arte.

Pacard

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