Esta história precisa ser contada com um pouco mais de detalhes. Desenhar esta casa foi um exercício de tentativa e erro, inicialmente baseado apenas nas informações de duas pessoas, a quem registro minha enorme gratidão: Ilse Miguelina Puhl e Dirceu Hugo Daros.
E assim Gramado já sabe um pouco mais de sua história quase esquecida.
Uma pista guardada na memória
A investigação começou quando eu desenhava o Hospital de Caridade Santa Teresinha. Minha avó, Maria Elisa Dias Cardoso, e o Dr. Erico Albrecht — médico e proprietário do hospital durante muitos anos — diziam que aquele hospital havia sido construído por um certo Valentim Puhl. Era tudo o que se sabia. João Valentim Puhl permanecia quase ausente da memória pública.
Procurei referências entre os participantes mais idosos de meus grupos nas redes sociais. Sergio Bertoja recordou que sua mãe, dona Lacy Bertoja, mencionava uma família Puhl que vivera em Gramado e partira na década de 1950. A busca continuou em comunidades familiares e registros genealógicos, até que os fios dispersos começaram a se encontrar.
Um primeiro contato, Celso Puhl, da região de Santo Cristo e residente em Santa Rosa, acolheu a pesquisa e tentou localizar referências na genealogia da família. Mais tarde, outro Celso Puhl entrou em contato: ele era neto de João Valentim e filho de dona Ilse Miguelina Puhl, então com 96 anos, lúcida, gentil e disposta a reconstruir essa lembrança.
O depoimento de Ilse Miguelina Puhl
Dona Ilse contou que seus pais viviam em São Sebastião do Caí e depois se mudaram para Linha Imperial, em Nova Petrópolis. Seu pai, João Valentim Puhl, era alfaiate. Sua mãe, Lúcia Matilde Puhl, da família Stürmer, era a grande força empreendedora da casa e paciente do Dr. Carlos Nelz.
Foi a partir dessa amizade, incentivada pelo Dr. Nelz, que meus pais alugaram uma casa da família Daros e nela montaram um pequeno hospital, com cerca de oito quartos.
Embora dona Ilse não dispusesse de uma fotografia completa da casa, seu relato trouxe a informação decisiva: o imóvel pertencera à família Daros. O nome abriu uma nova passagem na investigação.
Gramado de priscas eras — o hospital da família Puhl
Vídeo apresentado por Pacard com imagens e memória da antiga Gramado. Por ter duração maior, está organizado em duas partes sequenciais.
A chave do nome Daros
Augusto Daros era avô da saudosa historiadora Marília Daros e de seu irmão, Dirceu Hugo Daros, que se tornou um colaborador essencial deste trabalho. Dirceu conhecia a casa e havia vivido nela durante sete anos, depois que o novo Hospital Santa Teresinha foi concluído e Hugo e Soely Daros passaram a ocupar o imóvel.
Dirceu confirmou que havia oito quartos na parte superior da casa — no espaço que chamamos de sótão. A informação coincidia com a lembrança de dona Ilse e ajudava a definir a volumetria da construção.
Reuni esses depoimentos com as observações que eu já havia acumulado sobre os padrões arquitetônicos de Gramado na primeira metade do século XX. A partir deles, aventurei-me a traçar o volume da casa, já que não existia uma fotografia capaz de revelar toda a estrutura. O esboço foi enviado a Celso Puhl para que dona Ilse pudesse corrigi-lo. Ela confirmou que, de acordo com sua memória, a casa era assim.
Das lembranças ao modelo tridimensional
Os primeiros estudos foram sendo corrigidos à medida que as conversas esclareciam a posição de janelas, portas e varanda. A fotografia de um fragmento da casa revelou também um caramanchão de glicínias, que sugeriu as cores adotadas na reconstrução final.
Dirceu registrou que Augusto Da Ros, italiano de Treviso, casado com Angelina Nicoletti Da Ros, foi proprietário da casa depois do hospital. Após a morte do casal, o imóvel permaneceu com os herdeiros. A família viveu ali até 1949, quando se mudou para a propriedade vizinha ao padrinho Benno Ruschel, da Farmácia Galeno.
O novo Hospital Santa Teresinha
Dona Ilse fez questão de lembrar que existia uma escada externa no lado esquerdo do Hospital Santa Teresinha. As fotografias remanescentes mostram a família Puhl diante do novo hospital e registram, entre outras cenas, um dia de neve na horta da instituição.
Esses registros pertencem ao acervo da família Puhl e chegaram à pesquisa por cortesia de Celso Puhl e Ilse Miguelina Puhl. Outras memórias e imagens da família Daros foram compartilhadas por Dirceu Hugo Daros, a partir do acervo de Marília Daros Franzen.
Depois da venda do Hospital Santa Teresinha ao Dr. Erico Albrecht, a família Puhl mudou-se para o município de Rio do Sul, em Santa Catarina. As imagens familiares conservam Valentim, Lúcia, a pequena Ilse e outros parentes nessa nova etapa da vida.
Foi assim que comecei a encontrar a saída do labirinto, seguindo o fio da curiosidade e a determinação de conhecer a história atrás da história do Hospital do Dr. Erico.
A reconstrução não pretende substituir o documento histórico. Ela torna visível uma memória construída pela associação cuidadosa de relatos, fragmentos fotográficos, padrões arquitetônicos e validação das pessoas que conheceram o lugar. É assim que a antiga Gramado reaparece: não como fantasia, mas como uma história ilustrada, recuperada antes que seus últimos fios desapareçam.
Fontes desta seção: Publicação original no Blog do Pacard — 18 de novembro de 2021 ↗
Publicado originalmente no Blog do Pacard ↗
Fontes consultadas
Pacard

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